A ascendência Nascimento revela uma história profundamente ligada ao trabalho manual, à vida ribeirinha e à música como expressão da alma. É uma linhagem marcada por migrações, esforço e talento, cujos reflexos ainda ecoam nas gerações atuais. Há raízes que nascem da terra. Outras, da travessia. “Os que confiam no Senhor são como o monte que não se abala.” Estabilidade não depende apenas do lugar, mas da firmeza interior.
Joaquim Alves do Nascimento
1944 - 2002
Joaquim Alves do Nascimento nasceu em 08 de dezembro de 1944, na localidade do Paraná do Cambixe, no município de Careiro da Várzea, Amazonas. Era um território onde o rio ditava o ritmo da vida, e o trabalho surgia da convivência direta com a natureza. Desde cedo, Joaquim desenvolveu habilidades próprias desse ambiente, tornando-se carpinteiro e pescador — ofícios que exigiam paciência, precisão e resistência física. O rio ensina algo silencioso: quem não aprende a remar com direção é levado pela corrente. “Melhor é o paciente do que o forte.” Força sem domínio não constrói permanência.
Naquele período, Joaquim residia na comunidade do Cambixe, enquanto Ivaneide morava na costa do Marimba, também no Careiro da Várzea. Entre as duas comunidades existia o Lago do Marimba, utilizado como principal via de deslocamento entre os moradores da região. Foi em uma festa local que os dois se conheceram, de maneira simples e espontânea, como era comum na época. Após esse primeiro encontro, Joaquim demonstrou interesse e, algum tempo depois, dirigiu-se à casa dos pais de Ivaneide para pedir permissão ao pai dela para poder visitá-la, seguindo os costumes tradicionais de respeito e seriedade. Respeito antecede construção. Honra antecede vínculo. “O que anda em integridade anda seguro.” Relacionamentos firmes nascem de princípios claros.
A partir de então, o relacionamento começou de forma gradual. Sempre que possível, Joaquim atravessava o lago para vê-la, e assim, entre travessias, conversas e encontros discretos, a história do casal teve início. Algumas travessias são geográficas. Outras são decisões de vida.
Em 1973, Joaquim migrou para Manaus em busca de melhores condições de vida. O início na capital foi marcado por dificuldades. Houve períodos em que a alimentação da família era extremamente simples, limitada ao que era possível naquele momento. Mesmo diante da escassez, Joaquim manteve sua dignidade e firmeza de caráter. Em certa ocasião, precisando garantir alimento para casa, foi até um açougue, explicou sua situação e pediu carne fiado, dando apenas sua palavra de que pagaria no dia seguinte. O acordo foi selado com um aperto de mão. No dia seguinte, como prometido, retornou ao local e quitou integralmente a dívida, reforçando a confiança e o respeito que sempre pautaram sua conduta. Há fases em que o recurso é pouco. Mas o caráter não pode ser. “Melhor é o pouco com justiça do que grandes riquezas com injustiça.” Honra vale mais que abundância momentânea. Há homens que assinam contratos. Outros assinam com a palavra. “O justo cumpre o que promete, ainda que lhe custe.” Credibilidade é patrimônio invisível.
Ainda em Manaus, Joaquim atuou como carpinteiro na construção do Hotel Tropical, um dos empreendimentos mais emblemáticos da história da cidade. Seu trabalho integrou o esforço coletivo de muitos homens que ajudaram a erguer um marco do turismo amazônico, deixando ali uma contribuição concreta de sua trajetória profissional. Mãos que constroem prédios também constroem destinos. “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração.” Excelência não depende de palco, mas de postura.
Paralelamente à vida de trabalhador, Joaquim destacou-se pela música. Cantor, compositor e violonista, afinava seu violão de ouvido e tocava baixaria no violão, uma linha melódica executada nas cordas graves do instrumento, mais precisamente nos bordões, que correspondem às cordas mais graves do violão, compunha suas músicas enquanto seu neto Diego (Duquinha) escrevia as letras, pois Joaquim não sabia ler ou escrever, fazia da música mais que entretenimento: era expressão cultural, forma de união familiar e herança transmitida às gerações seguintes. Seu talento influenciou diretamente filhos e netos, muitos dos quais seguiram o caminho musical, mantendo viva essa tradição no seio da família. A música atravessou gerações como fio invisível de identidade. “Louvai com cordas e instrumentos.” Arte também é forma de memória.
Além disso, Joaquim era reconhecido na comunidade por deter conhecimentos tradicionais amazônicos relacionados ao cuidado com o corpo e o espírito. Ele praticava a desmentidura — técnica tradicional para colocar ossos “fora do lugar”, distinta de fraturas — e realizava rezas, especialmente em crianças. Esse saber unia o toque firme das mãos à força da oração, com o objetivo de acalmar, proteger e afastar sustos e quebrantos. Exercia esse conhecimento com discrição, sem divulgação, mas era frequentemente procurado por pessoas que confiavam em sua fé, experiência e caráter. Sua atuação era marcada pela simplicidade, solidariedade e profundo senso de responsabilidade, preservando uma tradição que hoje permanece como parte valiosa da memória familiar e do patrimônio cultural amazônico. Há saberes que não estão nos livros. Mas estão gravados na confiança das pessoas. “A fé sem obras é morta.” Cuidado se manifesta em ação.
Joaquim Alves do Nascimento faleceu em 2002, deixando como legado a imagem de um homem trabalhador, honesto, artístico e íntegro. Sua vida tornou-se exemplo de dedicação à família, respeito às tradições e compromisso com valores que atravessam o tempo, permanecendo vivos na história da ascendência Nascimento. Joaquim era altamente repeitado por sua esposa, seus filhos, netos, irmãos, sobrinhos e amigos. “Melhor é o bom nome do que grandes riquezas.” Nome preservado é herança permanente.
Joaquim Alves do Nascimento era filho de Manoel Monteiro do Nascimento, nascido em 06 de abril de 1906 em Cambixe – Careiro da Várzea/AM e falecido em 28 de abril de 1991, e de Adalgiza Alves de Moura, nascida em 07 de setembro de 1908, em Careiro/AM, falecida em Manaus. Suas famílias migraram para o Amazonas durante o período do ciclo da borracha, movimento histórico que levou inúmeras famílias do Nordeste para a região amazônica em busca de novas oportunidades. Migração exige coragem. Recomeço exige fé. “O homem propõe o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos.” Nem toda travessia é casual.
Joaquim cresceu em uma família numerosa, marcada pela convivência fraterna e pelos laços fortes entre irmãos. Seus irmãos eram: Val, Valdemarina, João, Maria, Hamilton, José, Raimundo, Augusto, Luís, Jaquelino, Francisco, Nelson.
Esse núcleo familiar expressivo reflete a tradição de famílias grandes, unidas pelo trabalho, pela fé e pelo apoio mútuo, valores transmitidos de geração em geração.
Manoel Monteiro do Nascimento
1906 - 1991
Manoel Monteiro do Nascimento, agricultor, era filho de João Monteiro do Nascimento, nascido por volta de 1870, natural do Rio Grande do Norte, e de Maria da Conceição, nascida por volta de 1870, natural do Ceará.
Por sua vez, João Monteiro do Nascimento era filho de Francisco Alves de Souza, nascido por volta de 1840, provavelmente natural do RN, e de Joana Maria da Conceição, nascida por volta de 1840, provavelmente natural do RN. Maria da Conceição era filha de Antônio Francisco, nascido por volta de 1840, provavelmente natural do CE, e de Maria Nascimento, nascida por volta de 1850, provavelmente natural do CE.
Essa sequência de gerações revela uma linhagem simples, porém resiliente, formada por homens e mulheres que construíram suas vidas com trabalho árduo e forte senso de família. Há nomes que não aparecem em livros. Mas sustentam histórias inteiras. “O homem de bem deixa herança aos filhos de seus filhos.” Herança é continuidade de valores.
Assim, a ascendência Nascimento se consolida como um tronco firme na árvore genealógica, sustentado pela coragem dos que migraram, pela habilidade dos que trabalharam com as mãos e pela sensibilidade dos que transformaram a música em herança eterna.
Por volta de 1880, o Amazonas recebeu um intenso fluxo migratório, composto majoritariamente por nordestinos, especialmente cearenses, impulsionado pelo Ciclo da Borracha.
Quem veio?
Retirantes Nordestinos: A maioria era formada por sertanejos, estimados em cerca de 120.000 pessoas, que fugiam da grande seca que assolou o Nordeste entre 1877 e 1879. Esses migrantes ficaram conhecidos como “soldados da borracha” na exploração dos seringais — embora o termo seja mais associado à Segunda Guerra Mundial, o fluxo migratório iniciou-se de forma massiva ainda no final do século XIX.
Imigrantes Estrangeiros: Portugueses, italianos, judeus e árabes também chegaram à região, atraídos pelas oportunidades de comércio na capital Manaus, que vivia um período de grande expansão econômica e urbana.